Alvaro Naddeo é meio uruguaio, meio paulistano. Como o coração se define pelo time que torcemos, tenho certeza que em uma final de Libertadores entre São Paulo e Peñarol, Alvaro é tricolor desde criancinha. Considero este seu maior defeito. Assim como considero muito o Alvaro desde o dia que me foi apresentado como estagiário na Leo Burnett, em 1999. Sabia que o cara iria longe. Só não imaginei que o longe também significasse quase 4000 km de distância daqui: Lima, capital do Peru.
Semana passada o Alvaro ganhou um bronze no El Ojo de Iberoamerica, um dos mais conceituados Festivais Publicitários da América Latina.
O filme dele, “Milagre”, para a Comissão Especial de Deficientes Físicos, poderia muito bem passar no Brasil porque a malandragem por uma vaga no trânsito corre solta em terras tupiniquins.
Esse é o link com legendas em português: http://www.youtube.com/watch?v=O4wdO6BpaFs
Sempre acreditei que o bom criativo fica ainda melhor se cair num ambiente competitivo, com criativos de ponta, e Alvaro teve essa felicidade ao trabalhar na Leo com o Zé Henrique Borghi (dono da Borghier), com o Alexandre Okada (manda chuva criativo da McCann), com diretores de arte como Marcelo Camargo, André Nassar, Bruno Prósperi, Carlos Murad, etc, e não vou me excluir disso, já que sempre dei muito apoio aos estagiários com talento.
Conversei com o Alvaro e consegui um depoimento muito bacana dele sobre essa vida de publicitário num país com menos tradição publicitária que o Brasil. Para entender melhor o que estou falando, comparar as facilidades e verbas da propaganda brasileira com a peruana é como comparar a de São Paulo com a do Triângulo Mineiro. E como sempre digo, é possível sim fazer coisas geniais sem um tostão furado no bolso.
Palavras do Alvaro, exclusivas para o Bicho de Goiaba:
“O Brasil tem muito mais em comum com o Peru do que, por exemplo, com Argentina, Uruguai ou Chile. Aqui o povo compartilha com os brasileiros a vocação para festa, o calor das amizades, o gosto pela música alegre, enfim, a temperatura da sociedade por aqui é muito mais “caliente” do que o resto dos “hermanos” sulamericanos. O outro lado que compartilhamos é o gosto do povo pela malandragem, “leis de Gerson” e afins. Policial de Trânsito por aqui também adora dar um “jeitinho” a troco de uma “cervejinha”.
Como todo publicitário que se preze, além de ter uma curiosidade gigante, ando sempre de antena ligada, atento ao que acontece ao meu redor. Há uns 10 anos estava com meu pai no estacionamento de um supermercado. Quando alguém estacionou malandramente na vaga do deficiente, meu pai comentou que aquela vaga de deficiente era mágica, bastava estacionar ali que o motorista já saia andando. Pronto. Semente registrada.
Conversando com uma professora da Faculdade onde dou aula, ela me disse que estava ajudando a “Comissão Especial da Discapacidade”, e que um filme com objetivo de conscientizar seria muito bem vindo. Foi o suficiente para eu desenterrar a idéia da vaga milagrosa e colocar a coisa em movimento.
O primeiro passo foi escrever o roteiro e de cara já defini que o comercial seria real, documental, tipo pegadinha, o que favorecia muito no aspecto produção e custos. A gente podia gravar em vídeo em vez de filmar, o que já é um belo corte em custo. O fato de o comercial se passar na rua também ajudava a economizar em produção e locação.
Ai comecei a pedir ajuda geral, opinião do meu dupla, sinal verde do chefe, pedi para colocar a RTV da agência na parada também, com o RTV mandamos o roteiro para um diretor amigo nosso, que é dono da sua produtora, ele viu o potencial da idéia e topou ajudar “na faixa”. Mas aproveitou o fato de ser um filme “de favor” e colocou um diretor novo, moleque, para dirigir, fazer “portfolio” e pegar experiência.
Ía ser muito difícil fazer a pegadinha de verdade, então optamos por usar atores. O grande problema é que não tínhamos dinheiro para atores também. Decidimos então recrutar atores amadores numa escolinha de improvisação. Todos são desconhecidos e inexperientes, no máximo fizeram uma pontinha em alguma peça de teatro de faculdade ou tiveram seu ápice no papel de “extra” em algum comercial. Nesse caso até acho que a limitação ajudou, acho que a inexperiência deles deu o realismo necessário pro comercial.
Um fato engraçado é que a locação era o estacionamento de uma loja que tinha falido e fechado (dá para ver através do vidro as caixas da mudança empilhadas). Todos os carros da fila ao lado da vaga são os nossos carros. Do outro lado do estacionamento existe um supermercado funcionando, com vaga de deficientes. Enquanto gravamos o nosso filme, vimos vários malandrinhos parando ilegalmente na vaga de lá. Quando já tínhamos as nossa cenas gravadas, fomos na vaga da frente e tentamos fazer uma pegadinha de verdade para ver no que dava, e quando nossos atores chegaram no “Folgado!” o cara levou uma puta susto, comecou a gritar “Policia! Estao querendo me sequestrar!”, deu um puta confusão…
Confirmamos que fazer de verdade seria mesmo impossível, mas ao menos demos um susto no folgado que vai pensar duas vezes antes de estacionar errado de novo.
O custo total do comercial foi de 200 dólares para pagar os táxis dos atores e o rango servido no dia da filmagem. Até agora o filme só foi inscrito no “El Ojo de Iberoamérica”, vamos ver se tem mais alcance no Clio ou Cannes de 2010.”
Esse foi o texto do Álvaro, diretor de criação da PragmaDDB, de Lima, quando esse comercial foi realizado. Um filme desses ao custo de 200 dólares comprova uma das verdades que eu disse nas minha palestras em Uberlândia e Uberaba em outubro: que nada baixa mais o custo de uma produção do que um excelente roteiro na mão.
Parabéns ao meu grande amigo Alvaro Naddeo e a todos que participaram. Convido vocês a fazer a pegadinha nos shoppings do Brasil. E estou desde já torcendo para esse filme arranhar um Leão.
Fosse uma pizza, Alvaro Naddeo seria mezzo uruguaia, mezzo paulistana. Como o coração se define pelo time que torcemos, tenho certeza que em uma final de Libertadores entre São Paulo e Peñarol, Alvaro é tricolor desde criancinha. Considero este seu maior defeito. Assim como considero muito o Alvaro desde o dia que me foi apresentado como estagiário na Leo Burnett, em 1999. Sabia que o cara iria longe. Só não imaginei que o longe também significasse quase 4000 km de distância daqui: Lima, capital do Peru.
Semana passada o Alvaro ganhou um bronze no El Ojo de Iberoamerica, um dos mais conceituados Festivais Publicitários da América Latina.
O filme dele, “Milagre”, para a Comissão Especial de Deficientes Físicos, poderia muito bem passar no Brasil porque a malandragem por uma vaga no trânsito corre solta em terras tupiniquins.
Esse é o link com legendas em português:
Sempre acreditei que o bom criativo fica ainda melhor se cair num ambiente competitivo, com criativos de ponta, e Alvaro teve essa felicidade ao trabalhar na Leo com o Zé Henrique Borghi (dono da Borghierh), com o Alexandre Okada (manda chuva criativo da McCann), com diretores de arte como Marcelo Camargo, André Nassar, Bruno Prósperi, Carlos Murad, etc, e não vou me excluir disso, já que sempre dei muito apoio aos estagiários com talento.
Conversei com o Alvaro e consegui um depoimento muito bacana dele sobre essa vida de publicitário num país com menos tradição publicitária que o Brasil. Para entender melhor o que estou falando, comparar as facilidades e verbas da propaganda brasileira com a peruana é como comparar a de São Paulo com a do Triângulo Mineiro. E como sempre digo, é possível sim fazer coisas geniais sem um tostão furado no bolso.
Palavras do Alvaro, exclusivas para o Bicho de Goiaba:
O Brasil tem muito mais em comum com o Peru do que, por exemplo, com Argentina, Uruguai ou Chile. Aqui o povo compartilha com os brasileiros a vocação para festa, o calor das amizades, o gosto pela música alegre, enfim, a temperatura da sociedade por aqui é muito mais “caliente” do que o resto dos “hermanos” sulamericanos. O outro lado que compartilhamos é o gosto do povo pela malandragem, “leis de Gerson” e afins. Policial de Trânsito por aqui também adora dar um “jeitinho” a troco de uma “cervejinha”.
Como todo publicitário que se preze, além de ter uma curiosidade gigante, ando sempre de antena ligada, atento ao que acontece ao meu redor. Há uns 10 anos estava com meu pai no estacionamento de um supermercado. Quando alguém estacionou malandramente na vaga do deficiente, meu pai comentou que aquela vaga de deficiente era mágica, bastava estacionar ali que o motorista já saia andando. Pronto. Semente registrada.
Conversando com uma professora da Faculdade onde dou aula, ela me disse que estava ajudando a “Comissão Especial da Discapacidade”, e que um filme com objetivo de conscientizar seria muito bem vindo. Foi o suficiente para eu desenterrar a idéia da vaga milagrosa e colocar a coisa em movimento.
O primeiro passo foi escrever o roteiro e de cara já defini que o comercial seria real, documental, tipo pegadinha, o que favorecia muito no aspecto produção e custos. A gente podia gravar em vídeo em vez de filmar, o que já é um belo corte em custo. O fato de o comercial se passar na rua também ajudava a economizar em produção e locação.
Ai comecei a pedir ajuda geral, opinião do meu dupla, sinal verde do chefe, pedi para colocar a RTV da agência na parada também, com o RTV mandamos o roteiro para um diretor amigo nosso, que é dono da sua produtora, ele viu o potencial da idéia e topou ajudar “na faixa”. Mas aproveitou o fato de ser um filme “de favor” e colocou um diretor novo, moleque, para dirigir, fazer “portfolio” e pegar experiência.
Ía ser muito difícil fazer a pegadinha de verdade, então optamos por usar atores. O grande problema é que não tínhamos dinheiro para atores também. Decidimos então recrutar atores amadores numa escolinha de improvisação. Todos são desconhecidos e inexperientes, no máximo fizeram uma pontinha em alguma peça de teatro de faculdade ou tiveram seu ápice no papel de “extra” em algum comercial. Nesse caso até acho que a limitação ajudou, acho que a inexperiência deles deu o realismo necessário pro comercial.
Um fato engraçado é que a locação era o estacionamento de uma loja que tinha falido e fechado (dá para ver através do vidro as caixas da mudança empilhadas). Todos os carros da fila ao lado da vaga são os nossos carros. Do outro lado do estacionamento existe um supermercado funcionando, com vaga de deficientes. Enquanto gravamos o nosso filme, vimos vários malandrinhos parando ilegalmente na vaga de lá. Quando já tínhamos as nossa cenas gravadas, fomos na vaga da frente e tentamos fazer uma pegadinha de verdade para ver no que dava, e quando nossos atores chegaram no “Folgado!” o cara levou uma puta susto, comecou a gritar “Policia! Estao querendo me sequestrar!”, deu um puta confusão…
Confirmamos que fazer de verdade seria mesmo impossível, mas ao menos demos um susto no folgado que vai pensar duas vezes antes de estacionar errado de novo.
O custo total do comercial foi de 200 dólares para pagar os táxis dos atores e o rango servido no dia da filmagem. Até agora o filme só foi inscrito no “El Ojo de Iberoamérica”, vamos ver se tem mais alcance no Clio ou Cannes de 2010.
Esse foi o texto do Álvaro, diretor de criação da PragmaDDB, de Lima, quando esse comercial foi realizado. Um filme desses ao custo de 200 dólares comprova uma das verdades que eu disse nas minha palestras em Uberlândia e Uberaba em outubro: que nada baixa mais o custo de uma produção do que um excelente roteiro na mão.
Parabéns ao meu grande amigo Alvaro Naddeo e a todos que participaram. Convido vocês a fazer a pegadinha nos shoppings do Brasil. E estou desde já torcendo para esse filme arranhar um Leão.
Post com colaboração de Henrique Jábali.