A sete palmos da realidade.
Post especial por MARCELO PIRES*
Publicitário e escritor.
Dia desses, participei de um debate sobre o futuro da propaganda.
Qual publicitário já não participou de um debate assim? E qual publicitário, em um debate assim, não precisou discorrer sobre a internet, sim, a internet; o youtube, sim, o youtube; a mídia viral, sim, a mídia viral; e a interatividade, sim, sim, sim, a tão bem-vinda interatividade.
No meio desse assunto todo, com os debatedores ali, respondendo a seu bel-prazer questões amplas demais, me dei conta que, de novo, ao falarmos de futuro, estávamos todos a pensar em inovações tecnológicas. Ou, pelo menos, falando que tipo de mudança vem acontecendo no comportamento das pessoas devido a avanços tecnológicos.
Comentei isso ao vivo no debate e sugeri que a indústria da publicidade deveria urgentemente se alinhar aos avanços que ocorreram não nos meios de comunicação, mas na fonte desta comunicação: as pessoas em si.
O papo ficou meio vago, meio pernóstico, mas, por sorte, me ocorreu uma boa forma de exemplificar o que eu estava dizendo.
Não sei se você já assistiu a algum capítulo de A sete palmos (Six feet under).
No primeiro capítulo dessa série de TV conhecemos uma família americana contemporânea: pai, mãe, três filhos adultos.
A família administra um pequeno negócio: uma funerária. Mas o enterro no primeiro capítulo não é de nenhum cliente; o pai morre em um acidente de carro. A cena é incrível: um ônibus bate no carro funerário e o arrasta por meio quarteirão.
Com a morte do pai, que retornará a todos os capítulos da série em forma de um irreverente espectro (roqueiro, fumante, mulherengo), vamos entrando em contato com os outros personagens.
A filha mais jovem, uma ruivinha graciosa, ao saber da morte do pai, tinha acabado de tomar um ácido — e vai para o enterro totalmente doidona.
O filho mais velho, ao saber da morte do pai, está transando no banheiro do aeroporto com uma moça que acabou de conhecer no avião.
A viúva, ao saber da morte do marido, sofre uma crise, não sabendo lidar com a culpa de, nos últimos anos, ter um assíduo amante (os dois costumavam fazer camping).
E o filho do meio, homossexual, católico fervoroso, segura a onda da notícia da morte do seu pai nos braços do seu namorado, um policial afro-americano, também supercristão.
Esqueci de contar: este primeiro capítulo acontece na idílica época do Natal.
Por que raios eu lembrei de tudo isso em pleno debate sobre o futuro da propaganda? Porque A sete palmos passa na TV. Não é peça de teatro. E a primeira, a segunda, a terceira, enfim, as várias temporadas da série, sucesso de público e crítica, já estão à venda em DVD.
A sete palmos deixa muito explícito que as pessoas mudaram — e já não são tão típicas como uns e outros fazem de conta que elas são. Quando a programação demonstra tal vitalidade, o intervalo comercial tem de correr atrás, pra não correr o risco de ser anacrônico.
Eu sei que nem toda família tem uma funerária, viaja de avião, toma drogas ou é supercristã. Mas, hoje em dia, muitos irmãos do meio namoram policiais negros; muita mãe arma a barraca com o vizinho; muita moça de família faz sexo casual; e quase todo mundo adora, e comenta, e acha o máximo séries de TV.
Inclusive, a personagem da ruivinha (que não é esguia, é fofinha, mas nem por isso deixa de ser bonita) acessa a internet toda hora nos capítulos da série. Não há, porém, significado especial nisso. Ela apenas acessa a internet. Relevantes para a história são as crises que ela está passando, potencializadas pela morte do pai.
Não estou fazendo apologia de drogas, de sexo em banheiros públicos ou de investimentos no setor funerário. Posso estar fazendo apologia de algo vago: o humano. Mas como o humano é falho em si, tudo bem, let’s go, folks!
As pessoas, temo em dizer, estão mais divertidas do que o intervalo. As pessoas estão mais maduras do que o intervalo comercial. As ousadias são reais. As ousadias não têm idade, credo ou condição social. As ousadias estão na rua.
O humor está mais elaborado do que esse tom infantilóide que caracteriza a maioria dos moderníssimos virais que pipocam nas agências de propaganda. O fantasma do pai, em A sete palmos, dá tapas na pantera. E, vtnc, isso não choca ninguém.
Foi isso o que disse lá no debate e repito aqui, agradecendo a atenção de quem veio comigo até esta última linha: o futuro da propaganda é o presente.
*Marcelo Pires tem 44 anos, é publicitário e lançou em maio, com Letícia Wierzchowiski (A casa das sete mulheres) e Virgílio Neves (Ogilvy), o livro infantil O menino paciente, publicado pela Editora Record. Gentilmente cedeu seu artigo para publicação no Bicho de Goiaba. Seu e-mail é marcelopirex@uol.com.br


29 de junho de 2007 as 10:28 am
muito bom o texto!
11 de novembro de 2007 as 3:35 am
parece que a qualquer momento toda a previsibilidade do velho arquétipo da sociedade cairá por terra, você conseguiu verbalizar perfeitamente esse prenúncio da renovação.
parabéns!