300 está longe de ser 10.

Post especial por HENRIQUE JÁBALI
Cinéfilo e Publicitário
Há 4 anos, quando fui entrevistado por uma revista em Minas Gerais, uma das
perguntas era: “quais são seus ídolos atuais?” Um dos primeiros da minha lista era Frank Miller. Estava no mesmo patamar do Tarantino, se não me engano. E junto com meus músicos de cabeceira. Isso tem tudo a ver com o que vou escrever aqui. Desde Ronin, em 1988, eu leio e tenho quase tudo de Frank Miller. O belíssimo 300 comprei em 1999, quando foi lançado nos Estados Unidos em edição capa dura, a mesma e cuidadosa edição que só agora, com 8 anos de
defasagem, saiu no Brasil (uma edição vagabunda, gibizinho, formatinho ou correlatos já tinha saído, dividindo a graphic novel em 3 ou 4 partes).

A HQ conta uma história real, acontecida uns 480 anos antes de Cristo, e que a gente aprende na escola lá pelo primeiro colegial (pelo menos quando estudei era assim que se chamava): a Batalha das Termópilas. Uma luta desigual de 300 espartanos liderados pelo Rei Leônidas contra 250 mil persas (alguns historiadores falam em 1 milhão), que tinham seu Exército de Imortais liderados por Xerxes. Só que os espartanos tinham um reforço: jogavam em seu campo. E resolveram lutar num corredor entre duas colinas, onde não mais que 10 soldados inimigos poderiam encará-los frente a frente. Foi a derrota mais cara que se já se viu na história: quando sucumbiu o último dos 300, vinte mil persas já tinham batido as botas.
Heródoto, o pai da História moderna, escreveu sobre o final da batalha: “… o pequeno grupo se manteve lado a lado na colina, lutando até o fim, alguns com espadas, outros com lanças, outros com suas próprias mãos e dentes, até que o último soldado caísse morto. “
Chega de lero-lero. Vamos sair da história e falar de 300, o filme.
Entrei no cinema cheio de motivos para gostar, para vê-lo como o filme do ano, e que decepção, fiquei no meio do caminho entre o “quase gostar” e o “será que estou exigente demais”?
O problema é que, pra mim, a HQ é melhor. Mas muito melhor. Até porque o filme é uma linguagem adaptada dos comics, com as tintas de Lynn Varley, a mulher de Frank Miller, espalhando gotas de sangue pela tela. Mas o que me deixou com a pulga atrás da orelha, e que pesou no meu julgamento, foi uma alteração num dos principais personagens secundários da
história (engraçado um “principal personagem secundário”, mas sim, ele existe). Na HQ o deformado Efialtes, o espartano que gostaria de ser um guerreiro mas nasceu monstro, tem um mínimo de dignidade. No momento em que vai mostrar suas habilidades ao rei Leônidas e descobre que não poderia fazer parte da falange espartana, ele simplesmente se revolta, diz que foi enganado pelo pai, pela mãe e tenta o suicídio. E aí, meus caros, ele se sente enganado até pelos Deuses, pois nem morrer consegue. Seu suicídio dá com os burros n’água. Só que no filme esssa tentativa de suicídio não existe. Torna-se apenas uma virada de casaca. De personagem trágico, ele foi promovido a um reles Judas Iscariote. Tiraram do pobre Elfialtes o pouco que lhe restava.
Mas isso é só um detalhe. O problema maior é que chega um momento em que o filme fica cansativo. Quem assiste sabe que hordas e mais hordas de persas vão morrer, só não sabemos como (pra falar a verdade, até sabemos: decepados). E qualquer um que já saiu do Jardim da Infância também pressente que, a qualquer instante, o personagem que deu as costas, o Elfialtes aí de cima, vai contar o que ninguém pode saber.
Numa análise crua, e até cruel, o filme é muito mais forma do que conteúdo. E, sob esse ponto de vista, aí sim os elogios e todo o frenesi pré-lançamento são mais do que necessários. Os cenários, todos desenhados, são lindos. A cor é a mesma da história em quadrinhos. O sangue, como já
disse, é um espetáculo à parte. E já que o assunto é forma, não há como escapar da forma física dos espartanos. Bombados de academia, morram de inveja. Os rapazes sarados de Esparta talvez sejam a única atração para as mulheres no cinema, neste que, para mim, é o mais masculino dos filmes desde “O Poderoso Chefão”. Sobra testosterona para todos os lados. Até a rainha
espartana (e o bom de filmes de época é que as mulheres são de verdade, sem silicone) tem muito mais colhões do que os persas. Ainda mais se falarmos no rei metido a Deus, Xerxes.
Pronto, chegamos ao Rodrigo Santoro. Ouvi gente dizendo que ele está ridículo. Pode ter certeza, quem diz isso não leu a HQ. A primeira aparição de Santoro, com pose de Clovis Bornay em cima de carro alegórico, é idêntica à da HQ. O original foi preservado. E sua voz tem as mesmas características descritas na graphic novel: uma voz de veludo com um tom tão grave que até
faz eco. Ele é o Xerxes desenhado por Frank Miller, assim como o ator Gerard Butler é um Leônidas cuspido e escarrado, com sua barbicha silhuetando o perfil que está nos quadrinhos.

Ouvi gente dizendo também que 300 é um Sin City com revólveres trocados por espada. Vamos parar de bobagem, a única coisa que os dois filmes têm em comum é o autor Frank Miller. Mas se quiserem minha opinião sobre isso, lá vai: Sin City é melhor.
Chegando aqui, vale a pena um pouco de incoerência, já que uma vidinha toda coerente é bem chata: se alguém me perguntar sobre 300, recomendo assistir. Porque os efeitos especiais são maravilhosos. Porque é o filme da moda e quem perder vai sobrar quando o assunto na rodinha do boteco for cinema. E porque as frases mais ácidas que os historiadores atribuem a Leônidas estão lá (“Vamos lutar na sombra” ou “Esta noite jantamos no inferno”, por exemplo), mostrando que tinha palavras tão afiadas quanto sua espada.
Tem quem vai adorar, tem quem vai detestar, mas de uma coisa você pode ter certeza: com todo seu colorido de artesanato, 300 não passa em branco.
Leia aqui o artigo de Assis Eloy, o colaborador granfino do Bicho de Goiaba que assistiu à premiere de 300 em Los Angeles.


4 de abril de 2007 as 4:07 pm
Crítica fina, Henrique.
Assino embaixo!
4 de abril de 2007 as 4:18 pm
Não entendi muito pq vc nao gostou!
Vc citou o caso do Elfialtes, tudo bem …mais depois disse que isso é só um detalhe….
E que o filme fica cansativo pq sabemos q persas irão morrer, isso sabíamos mesmo, mas a forma como foi feita achei mto bacana, as sequencias de ação mto bem feitas e como vc disse a linguagem do filme perfeita né! a tonalidade das cores e arte.
Eu as únicas coisas q nao gostei muito foi o lobo do início…achei mto tosco e mal feito… e a maquiagem do Elfialtes, também muito mal feito, mas de resto achei mto bom !!
Abraçoss
4 de abril de 2007 as 7:02 pm
André, não gostei porque o filme é óbvio do começo ao fim, não tem nenhuma surpresa, e jamais vai concorrer a Oscar de roteiro, nem ao de melhor filme, apenas e tão somente aos Oscars técnicos.
Um bom roteiro pra mim é fundamental. O episódio dessa Guerra é muito interessante, mas acho que o filme pára na estética, não se leva nada mais além disso. E claro, pára na diversão, é uma boa diversão, mas não um grande filme. Se você comparar com outros filmes onde os efeitos especiais são também espetaculares, como O Labirinto do Fauno, acho que 300 não chega aos pés. É isso. E já que você falou em detalhe, na minha opinião um pequeno detalhe pode sim mudar o patamar de uma obra. Um filme como o Sexto Sentido seria medíocre, não fosse o detalhe de se revelar apenas no final que o Bruce Willis está morto. É só um detalhe, coloque no começo e o filme estraga. Vamos além: Amnésia. Coloque na ordem cronológica e não de trás para a frente, como está o filme, e vemos outro filme medíocre. Foi um pequeno detalhe, a forma como foi decupado o roteiro, que elevou essa historiazinha medíocre de Amnesia (Memento) a um dos melhorees filmes do ano.
É isso. Pra mim a história de 300 funciona melhor nos quadrinhos do que no cinema, porque na telona perdeu sua profundidade, restou a estética e a diversão ver ver gotas de sangue e cabeças de persas se esparramando pela tela (na primeira linha do meu texto digo que sou fã de Tarantino, então não se esqueça que nada tenho contra o sangue no cinema.)
Mas é isso, meu caro. Quem põe a opinião na internet está sujeito a ser questionado. E o que eu achei é apenas uma opinião de quem esperava mais.
abraço
H..J.
4 de abril de 2007 as 8:40 pm
Contem Spoilers
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Eu, como fã de Frank Miller e de 300 concordo com o que vc disse sobre a mudança dramática no personagem Efialtes. Mas acho que a fidelidade estética dos cenários, a perfeita transcrição das páginas para as telas dos personagens e até a liberdade de mexer um pouco na história (lembrando que a trama da rainha com o político traidor não existe na HQ) ultrapassou de longe esse pequeno defeito na adaptação do roteiro. Isso sem contar os outros inúmeros pontos positivos que o filme possui.
Mas concordo com você no título. 300 está longe de ser 10. Acho que 12 seria uma boa nota! hahahah
Abração
4 de abril de 2007 as 11:57 pm
Eu pirei!
Concordo com o Jabali sobre o personagem secundário Elfialtes, mas para ser sincero nem tinha reparado, mas mesmo assim concordo que os detalhes podem mudar o filme.
Mas quero falar é do visual, PQP!!! Vi uma vez e vou ver mais umas duas no cinema. As cenas de batalha são as melhores que eu já vi. Como foi dito, o sangue é um show a parte, aquele efeito “noise” da imagem, as cores, o ritmo, tudo me fez entrar num estágio de catarse no cinema. As adaptações não me irritaram, o Santoro não envergou a família, o personagem é aquilo lá, apesar de que achei meio gay a cena que ele coloca as mãos no rei Leônidas.
Puts! Eu Quero ser um espartano.
5 de abril de 2007 as 3:59 am
Nao tem problema nenhum o cara nao ter curtido o filme, mas nao concordo com os motivos, falar que o filme e previsivel sendo que conhece a historia inteira depois de ler a HQ e um pouco estranho… quase a mesma coisa de alguem reclamar de titanic porque ja sabia que o navio ia afundar. eu nao li o comic e nao achei nada previsivel.
5 de abril de 2007 as 11:36 am
Eu acho essa questão de aquecimento global muito séria.
5 de abril de 2007 as 11:55 am
Assis,
eu não fui ao cinema sozinho, fui acompanhado, e quem estava ao meu lado (juro que não era uma cigana e nem tinha bola de cristal) cantou antes da hora tudo o que iria acontecer, sem jamais ter visto os quadrinhos, porque é óbvio mesmo. Tão óbvio quanto o final de Star Wars IV, ou alguém duvidava que o herói iria explodir a Estrela da Morte? 300 utilizou no roteiro o que existe de pior no cinema: o clichê. É como o cara que é dispensado por um time e na final do campeonato faz o gol do título contra seu ex-time. Clichezaço. A questão é simples: o filme é lindo, uma puta diversão, uma técnica maravilhosa, e não passa disso. O roteiro nunca vai ser candidato a um Oscar, e se for, gente como o Charlie Kaufman, que fez Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembrança, por exemplo, e até o roteirista de Little Miss Sunshine, vão entrar em depressão.
Aliás, em nenhum momento eu disse que não gostei. Disse que fiquei entre o quase gostar e o “será que estou exigente?”
5 de abril de 2007 as 1:30 pm
“O resultado é um alucinante balé de violência estilizada, atitude e design.”
Achei essa frase no OMELETE, é o resumo do filme.
5 de abril de 2007 as 3:51 pm
Henrique, nem questionei sua opinião do filme, mesmo pq opinião cada um tem a sua né, eu só quis entender mesmo pq vc nao tinha gostado TANTOO do filme.
Vc acha q talvez o filme deveria ter tido uma maior adaptação? com novas situações e tal? novos dramas?
Pq a historia é essa né, sabemos tanto dos HQ qto historicamente, e oq achei mto loko foi isso mesmo.
Sabendo tudo que ia ocorrer mesmo assim torcia de verdade pros Spartanos ganharem! ahuahua…
Mas respeito a sua opiniao e acho bem loko seu blog.
Qto a amnésia, discordo que a sequencia cronologica seja apenas um DETALHE, mesmo que um detalhe importante. Para mim a ordem é o propósito do filme, assim como o Sexto sentido, o fato dele estar morto ser revelado apenas no fim tb não é um detalhe. A proposito, mudando de assunto, ja vi mtas vezes Amnésia e ja ouvi diversas versoes diferentes, e embora eu concorde com uma, não dá pra falar que a outra é mentira, pra vc quem matou a mulher afinal?
abraçosss
5 de abril de 2007 as 8:35 pm
André,
eu entendi que vc apenas quis saber por que eu nao gostei TANTO do filme. E acho que cheguei à conclusão: a história dá mais pano pra manga nos quadrinhos do que na telona. Porque, quando vc faz a HQ, chegou no ponto final e aí é só paginar, se for necessário 40 páginas, imprimam-se as 40, se forem necessárias 100, imprimam-se as 100. No cinema, e num filme desse porte, são necessários ao menos 90 minutos. Só que a história original era menor que isso, daí a necessidade de se encher linguiça, inventar a trama da rainha sendo traída, etc e tal. Mas nada contra, afinal quem sou eu pra dizer isso se o diretor e o roteirista ficaram anos em cima do projeto, não é mesmo?
E já que disse que 300 dá mais pano pra manga na HQ do que no cinema, pra mim é porque o cinema (e já se falou em balé estilizado) precisa de mais componentes além da estética, como um roteiro inteligente, exatamente o ponto em que o filme deixou a desejar.
Agora, é filme pra meninos que torcem. Eu também torci e vibrei a cada persa morto, mas isso não mudou minha opinião final. Fiquei boquiaberto com a estética, mas não passou disso, da estética, das lutas, e de um roteiro profundo como um pires, acrescido de um clichê. É o detalhe. Se em Casablanca o Rick Blaine de Humphrey Bogart entrasse no avião com a Ingrid Bergman, o filme seria água com açúcar. Pra mim o que mais faz diferença na vida é o detalhe, é ele que muda uma obra de um patamar. Sou publicitário e sei disso.
Em relação a Amnesia, picar cronologicamente é o detalhe que deu o pulo do gato ao roteirista. O filme nasceu desse estalo do roteiro, e aí montou-se uma história a partir disso. Ou seja, o detalhe foi promovido a “razão de ser”, é isso. E pra saber quem matou a mulher, eu teria que ver de novo pra me lembrar.
E pra finalizar, a frase de Nelson Rodrigues:
toda unanimidade é burra.
E a de um amigo meu, inteligentíssima por sinal:
Todo mundo gostar não passa da tirania da maioria.
5 de abril de 2007 as 8:55 pm
Respeito as opiniões. Jábali tem suas exigências cinematográficas porque conhece de cinema e já teve coisa muito boa e coisa muito ruim na mão. O andré não considera que detalhes podem ser super importantes e etc etc etc…
Eu sou diretor de arte full time, basta aparecer na minha frente algo esteticamente bacana pra eu entrar em extase logo de cara. Confesso que não tinha percebido todos esses detalhes que vocÊs levantaram. Vibrei de tal maneira com as cenas, com as batalhas, com os cuidados técnicos que parar pra pensar se o roteiro foi ou não ruim ficou só pra agora. E sinceramente? Mesmo com os pontos mostrados aqui não achei que ele estragou o filme. Só sei que no cinema cutucava minha namorada de take em take apontando cada detalhe cisual, que estava demais… e que quero ver pelo menos mais umas 2 vezes.
6 de abril de 2007 as 2:25 pm
Na minha opinião, o filme cumpriu bem o seu papel: diversão. Fui ao cinema por entretenimento e saí de lá bastante satisfeito com o que estava sentindo, coisa que há muito tempo não acontecia (grandes expectativas geram grandes decepções).
Ah se o guardinha do estacionamento estivesse de mau humor heheeheh
17 de maio de 2007 as 1:43 pm
Adorei a crítica (para variar) e concordo em tudo. Jabali sabe muito de cinema e mesmo quando discordo acho que ele tem razão. Hehe.
Mas só vou dar um 10 para a fotografia e artes do filme. Gostei muito. Mas o Sin City levou 20.