Mind the gap. Histórias e negócios de outro mundo.

Post especial por ADRIANO GOMIDES
Especialista em Gestão de marca e estratégias de marketing pela London School of Economics e responsável pelo Desenvolvimento Estratégico na Fórmula P.
O que uma Kiwi me ensinou sobre vender bolhas.
(E a cobrar R$ 88 bi por elas)
Mind the gap. Basta pisar em qualquer estação do metrô de Londres para descobrir o significado dessa expressão. Está em todas as paredes, dentro dos vagões e é repetida nos alto-falantes em cada parada. É o jeito dos ingleses pedirem atenção aos vãos que separam os trens das plataformas.
Para os imigrantes, os gaps estão em todo lugar e são maiores que os do metrô. São as diferenças culturais, os hábitos extravagantes e uma realidade socioeconômica incomparável com a nossa. Daí, o buraco se agiganta. Fica do tamanho do Atlântico e profundo como 1500 anos de história. E é preciso ter essas referências sempre em mente para entender o que nos separa.
Por isso, nessa coluna peço que você leitor tenha também essa perspectiva, porque pretendo tratar preferencialmente de histórias e negócios que acompanhei, ou estudei, durante o tempo em que cursei Gestão de Marca e Estratégias de Marketing na London School of Economics. Agora, com um ponto de vista ao sul do Equador.
Uma Kiwi chamada Amanda Jennings, a O² em pessoa.
Saber que alguém se apresenta como uma Kiwi já diz muito sobre o humor dessa pessoa. Mas se uma nação inteira se identifica assim, esse país deve ter algo especial. Como pássaro símbolo da Nova Zelândia e da liga nacional de rúgbi, o Kiwi se tornou sinônimo de neozelandês.
E após proferir a palestra mais interessante e divertida em um congresso de gestão de marcas em Londres (quem disse que assuntos importantes não podem ser engraçados?), tive a oportunidade de conhecer a Sra. Jennings, Diretora-chefe de Experiência de Marca da O², a operadora de celular líder do Reino Unido, com 27 milhões de clientes e presença na Alemanha, Irlanda e Eslováquia. E este contato se repetiu outras vezes, porque havia escolhido a telefonia como meu objeto de estudo e ela me ofereceu incontáveis cases e experiências da O² para ilustrar minha pesquisa. Vou apresentar alguns pontos desse estudo.
A experiência de marca no sucesso da O²
Lançada em novembro de 2001, a BTCellNet durou poucos meses, porque uma transação acionária trouxe novos investidores da Alemanha e uma nova empresa deveria ser criada. Apenas 6 meses depois, em abril de 2002, nascia a O².
Lançada com um prejuízo de 4 milhões de libras, em apenas 4 anos e meio a O² já era líder de mercado, marca mais desejada do segmento, e colecionava diversos prêmios em gestão de clientes e de marca até ser vendida no final de 2005. Para assumir o controle da empresa, a Telefónica desembolsou 18 bilhões de libras (R$ 88,5 bilhões no câmbio da época), um resultado impressionante para uma empresa tão jovem.
E o cliente está no centro de todo esse sucesso. Ele é principal responsável pela valorização da empresa, por sua robustez financeira e sustentabilidade. Clientes O² adoram a marca e os demais a desejam. E o melhor: essa capacidade de encantamento e sedução também se transferia para os negócios complementares na internet, mercados corporativos, celulares com marca própria e, espera-se agora, na convergência com serviços de telefonia fixa da Telefónica. Por esse motivo, as ações da O² tinham valorização constante e ainda ajudavam a capitalizar as empresas coligadas.
Todos querem se apaixonar. Seduza pelo seu amor.
Com um conceito mais romântico do que se poderia imaginar, é assim que a experiência de marca surgiu na O². Após uma pesquisa realizada com gerentes de lojas e de todos os segmentos da empresa, 42% dos principais desafios ao crescimento eram vinculados ao relacionamento com cliente (força de vendas, serviços e experiências com clientes).
Por esse motivo, toda a arquitetura de marca, estratégia de posicionamento, identidade visual e conceito foram testados e implantados inicialmente no ambiente interno para que, chegando às ruas, tivessem a capacidade de conquista esperada. O monitoramento sistemático garantia a manutenção desse ambiente de venda diferenciado, evitando frustrações ou a perda da atmosfera positiva que todo lançamento é capaz de gerar.
Logomarca, conceito e comunicação 360º
Como mercados maduros e com muita experiência acumulada em negócios, uma das diferenças mais evidentes na gestão de marca e de comunicação nas empresas que estudei é a consistência das ações.
Toda estrutura de mídia e investimento é planejada com rigor, centralizando as negociações nas agências de mídia. Por meses a fio, os designers de mídia criam e negociam inúmeras propostas em busca das melhores oportunidades, contratos de exclusividade, descontos ou ações de merchandising em programas sequer lançados. Essa centralização garante dispersão mínima e maior retorno de imagem, além de transmitir segurança para clientes e investidores.
Embora seja impossível abarcar todos os veículos e alternativas de mídia, os canais escolhidos são explorados ao extremo com a associação de criatividade e freqüência. Com isso, a agência de marcas Lambie-Nairn — que estabeleceu um case em telefonia que viria a influenciar a também inglesa Wolff Ollins na estratégia de marca da Oi e Vivo, além influenciar a Gad Design na criação e aplicação do sol da Claro — tinha certeza que a identidade e aplicação visual da O2 destacando o princípio vital do oxigênio, seu efeito na água com as bolhas, fundo azul e conceito “Um mundo que gira em torno de você” teriam uma exposição não só muito abrangente, mas sobretudo extremamente consistente junto ao público-alvo definido.
Conquistando clientes através da relação com a marca
Em resumo, podemos identificar os diferenciais competitivos da O² em quatro princípios complementares:
• Marca sólida internamente
Todas as ações internas têm que ser multisetoriais para que o departamento de compras ou de distribuição não tenham percepções diferentes sobre mix de produtos ou público-alvo, por exemplo. Daí, as paredes que separavam setores foram postas a baixo e a transparência interna gerou na equipe uma progressão de conhecimento, compreensão, identificação e orgulho com a marca.
• Consistência 360º
Uma empresa que oferece produtos e serviços deve ter atenção redobrada com ambos, pois mesmo uma empresa posicionada corretamente sofre duas conseqüências inevitáveis a cada lançamento: a marca diz algo novo sobre seus produtos ou serviços e estes dizem algo novo sobre a marca. E sem uma gestão consistente, lançar algo novo pode significar mais problemas do que resultados. Então, é preciso ter cuidado e consistência em todas as formas de contato dos clientes com sua marca, desde produtos, serviços, PDV, mídia eletrônica ou impressa, internet, CRM, imprensa, equipe de vendas, promoções ou merchandising.
• Fidelidade através da propaganda
É natural o desejo de retorno de imagem ou conhecimento de marca após uma campanha publicitária. Contudo, após conhecer sua marca, o mais importante é saber inovar sem perder a identidade e desdobrar os conceitos associados para gerar o segundo e mais duradouro elo do cliente interno e externo com sua marca: afinidade.
• Aumentar pontos de contato da marca
Segmentar a comunicação sem perder a identidade é um desafio que exige criatividade, habilidade para definir foco de ação e grande conhecimento de mercado. Mas os resultados são mais facilmente mensuráveis e até com respostas imediatas. Patrocínios de eventos, merchandising, ações fora do ponto de venda, degustações, promoções ou brindes tendem a gerar ótimos resultados quando alinhados com uma estratégia de Brand Experience.
Eles chegam depois, mas vão mais longe. Vem aí “The O²”.
Espaço Vivo, Credicard Hall, Teatro Abril e outros espaços multiculturais de operadoras de telefonia ou empresas já são uma realidade há muito tempo no Brasil e em outros países. A própria O² investiu em um estádio para sediar jogos da Copa da Alemanha, mas só agora abre o seu próprio espaço na Inglaterra. A ação e objetivos são iguais às casas do Brasil. O que muda é a escala e abrangência.
Com um histórico de tanto sucesso em experiência de marca, a O² pretende ampliar seu repertório e valor de contato com clientes (além de atrair novos). Em julho deste ano será inaugurado “The O²”, um espaço plural para shows, tecnologia, artes e esportes (será sede das competições de ginástica nos Jogos Olímpicos de 2012) que deve consumir de 500 milhões de libras (multiplique por 4 para saber o valor em Reais), o maior investimento imobiliário privado da Europa.
E quanto a nós?
Conhecer o cliente, valorizá-lo e ser capaz de superar suas expectativas com coerência e criatividade. A receita não é nova. O que faz a diferença é saber executá-la sempre, sem cair na mesmice. Inovação sem perder identidade. Encantamento e sedução além da promoção. Competitividade comercial associada a um alto valor de marca para merecer precificação premium. A fórmula é essa. E nós, vamos trabalhar para diminuir esse gap?
Clique aqui e veja mais filmes da O² no YouTube.


4 de março de 2007 as 12:04 am
Leio o blog há algum tempo, mas essa matéria foi a melhor que lí aqui… Parabéns Adriano…
Abração!
5 de março de 2007 as 12:01 pm
Enfim, consumidores comuns como nós, não estamos apenas comprando, mas vivenciando uma marca que nos identifica, que nos aproxima do nosso estilo de vida, que transmite nossos valores (ou que desejariamos ter). É uma pena que vivenciamos isso tão raramente por aqui, embora tenhamos marcas com potencial para ações como brended enterteinment